Cultura e Património

“Como promover as novas criações culturais assegurando, simultaneamente, a transmissão às próximas gerações do significado da nossa genética cultural e identidade, expressas na arte, na literatura, na história e visíveis no nosso património? “

De um vasto conjunto de tradições, materiais e imateriais, importa debater as suas variadas formas de expressão ao longo do tempo, alicerçadas em novas formas de expressão culturais, às quais os Açores não são alheios. 

A intenção é assegurar às gerações futuras o conhecimento do seu passado e tradições, assim como a sua história, os costumes e identidade.

Os Açores são 9 ilhas de cultura dinâmica e bastante expressiva. Interessa agora debater o futuro dessa mesma cultura e, igualmente, saber de que formas se pode incentivar os jovens para a atividade cultural e, quanto à utilização do património, e seu usufruto, como utilizá-lo, a bem, das populações?

A profissionalização é uma necessidade. Em que medida isso irá tornar a cultura nos Açores mais dinâmica e a par do território nacional? 

Contamos com a vossa ajuda para responder a estas questões e a outras que, entretanto, possam surgir.

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  1. MJMocho
    MJMocho
    Dezembro 9, 2019

    Bibliotecas dos Açores – guardiãs do passado, obreiras do futuro
    Dá-se muito a tónica na preservação da memória, e, de facto, bibliotecas, arquivos e museus (“LAM – Libraries, Archives and Musems” ou “GLAM”, noutra versão, se forem incluídas as “Galeries”), são as chamadas “instituições de memória”. No entanto, a sua missão principal é dar acesso (plural, livre e gratuito) à informação e ao conhecimento, assim, têm uma função educativa, pedagógica (no domínio da educação não formal, ao longo da vida), além de outras instituições culturais e artísticas, parceiras de centros de formação, escolas e universidades (educação formal). Um excessivo enfoque na “memória” poderá conduzir a uma visão redutora do seu papel.
    Por conseguinte, há duas linhas de ação muito importantes nas LAM ou BAM (Bibliotecas, Arquivos e Museus): – a preservação da herança cultural e a educação não formal (incluindo, mas não se restringindo, à divulgação desse património). As BAM como agentes de intervenção no presente, fazendo pontes entre o passado e o futuro, para o qual futuro melhor da comunidade podem contribuir, e muito. Em especial as bibliotecas, são instituições democráticas, promotoras de uma cidadania ativa, espaços de liberdade e inclusão, que têm o potencial de abranger, formatando a sua oferta, todas as faixas etárias, credos, culturas, nacionalidades, condições económicas e sociais, níveis de instrução – um espectro que a educação formal não atinge.
    Na linha da preservação da memória coletiva e dos bens culturais, comparativamente às bibliotecas, tem-se investido muito em museus (decerto também por razões económicas, devido ao incremento da atividade turística na Região, a que estão ligados, e porque têm maior visibilidade), porém, atrás de uma grande exposição museográfica, de um centro interpretativo, está sempre uma grande biblioteca (fontes bibliográficas), um rico arquivo (também os há de imagens e sonoros), pois os objetos, isolados de um contexto, não falam… As próprias bibliotecas dispõem sobretudo de materiais impressos e de manuscritos, mas também de material cartográfico e não-livro (cartazes, fotografias, numismática, etc.).
    No mundo das bibliotecas há especializações (não é tudo igual, apesar da missão comum), em primeiro lugar, conforme as necessidades das comunidades que servem, dos seus públicos-alvo preferenciais, por isso, não devem andar todas, tendencialmente, a fazer o mesmo, por vezes, numa só localidade – torna-se necessário distribuir tarefas, delimitar campos de atuação, trabalhar em complementaridade, evitar a dispersão de recursos e a duplicação de esforços, num quadro financeiro sempre limitado. São instituições públicas, portanto, pagas pelos contribuintes – a boa gestão impõe-se, a eficiência multiplica as oportunidades.
    Não existe uma hierarquia nas “instituições de memória”, todas desempenham a sua missão numa sociedade desenvolvida, no entanto, não esquecer o papel fundamental das bibliotecas nesse universo. Ainda recentemente a BAD – Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas requereu audiências aos grupos parlamentares nacionais solicitando compromissos e investimento (material, recursos humanos, formação contínua), inclusive face à transição digital – a promoção da literacia digital é uma das suas atribuições atualmente.
    A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada pelas Nações Unidas em 2015, reconheceu o inestimável contributo das bibliotecas para o desenvolvimento, enquanto facilitadoras da implementação dos seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): – “As bibliotecas e a implementação da Agenda 2030 da ONU” (https://www.ifla.org/files/assets/hq/topics/libraries-development/documents/libraries-un-2030-agenda-toolkit-pt.pdf). Alinhada com a Agenda 2030, a recente posição da EBLIDA (http://www.eblida.org/) e da IFLA (https://www.ifla.org/), as organizações internacionais que representam as bibliotecas, no documento “A Library Manifesto for Europe” (https://www.europe4libraries2019.eu/) – “libraries matter for Europe, and, in turn, Europe matters for libraries”… As bibliotecas deverão ser ainda protagonistas nas “cidades educadoras” (http://www.edcities.org/pt/carta-das-cidades-educadoras/), naquelas cidades (e o mundo urbano cresce) que, em prol da qualidade de vida dos seus cidadãos, elegem a cultura, a educação (formal e não formal) como uma prioridade – é de destacar que as três principais cidades da Região (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta), num conjunto de 78 em Portugal, fazem parte da AICE – Associação Internacional de Cidades Educadoras.
    No âmbito da “Advocacy for libraries”, como tomada de consciência do impacto positivo da existência das bibliotecas de acesso público, bibliotecas anglo-americanas, e até da vizinha Espanha, resolveram disponibilizar nos respectivos sites um “Library value calculator” (https://www.sjlib.org/library-calculator/; http://www.wcl.govt.nz/about/services/library-value-calculator.html), o qual efetua o cálculo imediato do valor unitário de cada serviço e do total dos serviços prestados gratuitamente ou a preços reduzidos a um cidadão num determinado período de tempo, portanto, a poupança e a mais valia que representam para o mesmo. No caso espanhol (http://www.elvalordelasbibliotecas.es/es/calculadora-el-valor-de-las-bibliotecas/), há mesmo uma calculadora para os utentes e outra para as próprias bibliotecas no sentido de provarem, numa perspetiva puramente economicista (pois é muito mais difícil calcular os benefícios sociais), que “por cada euro investido a biblioteca oferece serviços avaliados em 3,06 euros”, ou seja, o retorno do investimento, o seu valor público.
    Por sua vez, as bibliotecas e os bibliotecários têm de repensar-se, reinventar-se em boa parte, abrir-se a novos públicos, ir ao seu encontro, assumir novos papéis e aceitar novos desafios numa sociedade em mudança, criar/participar em redes (começando na própria Região, sem barreiras geográficas, administrativas ou políticas, apoiando as instituições mais isoladas e contribuindo para a unidade açoriana), rentabilizar/partilhar recursos, aprender e reaprender sempre – o que, por parte da gestão de topo, exige investimento na formação especializada (tanto ao nível profissional como académico) e respeito pela identidade profissional desses técnicos. A partir do local (agir local, pensar global), internacionalizarem-se também, colaborarem em projectos europeus e com as comunidades da diáspora açoriana, conhecerem as boas práticas, outras realidades, divulgarem noutros palcos a história e a riqueza cultural da Região, tornarem-se mais proativos e interventivos, aproveitando as inúmeras oportunidades que, nomeadamente, a União Europeia através de vários programas lhes oferece (como o “Erasmus+” e a “Europa Criativa”, este no domínio das artes, a que devem aliar-se).
    Em conclusão, julgo que, com base num plano estratégico para a área (identificando necessidades, expetativas, prioridades e recursos), há que fortalecer o papel das bibliotecas na Região, por um lado, no limite do possível, reforçando-lhes as condições para que possam modernizar-se (igualmente na vertente administrativa e de gestão), acompanhar a rápida evolução tecnológica, diversificar e melhorar os seus serviços (num equilíbrio entre a tradição e a inovação, o papel e o digital, entre o consumo e a própria criação de produtos culturais nos seus espaços), por outro, exigindo-lhes proatividade, advocacy, fundraising junto de potenciais mecenas e venda de merchandising, criatividade no marketing das instituições, submetendo-as a uma avaliação regular do seu desempenho, da satisfação dos seus públicos (os utilizadores individuais e coletivos, diretamente ou via representantes, também devem ser ouvidos no planeamento das atividades), exigindo-lhes maior proximidade (que as tecnologias da informação e da comunicação facilitam, constituindo uma preciosa ferramenta em particular num meio insular), um retorno mais visível à sociedade, que as suporta, as justifica e que através delas espera a imortalidade…

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